Hoje, sou diferente.
Hoje, preciso de correr para me sentir equilibrada.
E ontem fui correr à chuva. Era de noite. Caíam só uns burricinhos. Telefonei ao meu gaijo e disse-lhe que ia correr (gosto sempre que ele saiba para onde fui treinar). Surpreendido, exclamou: “Mas está a chover!”. “Não está nada…isto é só molha-tolos. Fui”.
Agasalhei-me, boné na cabeça, casaco impermeável (nem por isso), colete reflector e lanterna. Tenho já um circuito estudado com quatro quilómetros com subidas e descidas em alcatrão esburacado que me obriga a andar quase sempre a desviar-me dos buracos (e ontem pus o pé numa poça de água…que desconfortável e divertido ao mesmo tempo!). É pelo meio da aldeia, passando pela zona das escolas (tudo em passeios e iluminado) mas depois segue em estrada sem luz e rodeada de eucaliptos com habitações espalhadas. Vou até à entrada de outra aldeia e volto para trás.
Ontem comecei como sempre, a caminhar a aquecer os tornozelos, joelhos (que têm sofrido imenso com o frio), costas e ombros. E lá arranquei. Parei por duas vezes. A chuva batia mais forte. Fosse há uns meses atrás e era ver-me a voltar para casa depois dos primeiros 50 metros. Mas ontem prossegui. Desafiei-me, corri, abri a boca para a chuva, agradeci-a aos deuses, abri os braços, respirei a humidade e amei-me.
Cheguei a casa estava o meu gaijo a fumar um cigarro no alpendre escuro à minha espera. Eu ria…à gargalhada, respiração ofegante. Estava satisfeita comigo. Despi a roupa, tomei banho, fiz o resto do jantar que já tinha adiantado antes de ir correr (bolonhesa de soja com bróculos para mim e massa para ele). Bebi o meu chá preto descafeinado, vimos parte de um filme gravado de cowboys e adormecermos no sofá. Foi um belo final de dia.